Existem várias
maneiras de manter estas aves em cativeiro com sucesso,
o objectivo deste pequeno artigo é descrever o sistema
por mim seguido quando os mantinha, e dar algumas ideias
sobre as suas mutações, para quem quer começar
a sua criação.
O sistema que
eu recomendo para criar Ringnecks é mais complicado
do que o normal e é de gestão mais intensiva,
mas permite obter um maior número de crias por casal,
e tem a vantagem que pode ser facilmente adaptado ás
possibilidades de cada um.
As minhas aves
são mantidas num sistema duplo, ou seja aos casais
na época de reprodução e em bando
fora desta, isso permite-me maior flexibilidade em termos
de escolhas de casais ao mesmo tempo que facilita-me a
ida para ferias, uma vez que ficam muito menos gaiolas
para tratar.
É possível
criar Ringnecks numa variedade de instalações
e seria fútil estar a indicar um modelo tipo, porque
vamos estar sempre condicionados pelo clima da zona e pelo
espaço disponível, o que eu aconselho é que
façam as melhores instalações que
possam dentro do orçamento, mais vale gastar mais
nas instalações e atrasar a compra de alguns
casais do que poupar nas instalações e ter
depois problemas devido a isso.
Dito isto:
- Os Ringnecks
precisam de espaço para voar e é portanto
aconselhável que as gaiolas tenham um comprimento
acima dos 2 metros, sendo este o comprimento mínimo
para tentar a sua reprodução;
-Num sistema
ideal a comida seria fornecida no lado oposto ao ninho,
mas tal é raramente possível, já que
obriga a ter uma instalação fechada com corredores
de acesso tanto à frente como atrás e isso
raramente é viável em termos de espaço,
o essencial é que seja possível tratar das
aves no menor espaço de tempo possível se
a zona de alimentação ficar junto ao ninho;
- O ninho pode
ser interno ou externo, mas tem que ser acessível
externamente e de tal modo que seja prático uma
vistoria diária, as dimensões podem variar,
os meus são caixas com 60 de alto por 30x30 com
um buraco perto do topo de 6 cm e uma escada de rede, a
porta de inspecção está situada a
10 cm do fundo do ninho no lado oposto ao buraco de entrada,
isto permite que a ave tenha facilidade em sair do ninho
sempre que o formos ver e o facto de ter uma “borda” de
10 cm impede que os ovos rebolem para fora;
- Outro ponto
importante são os poleiros, é imprescindível
que eles fiquem a uma distância tal da parede da
gaiola que a ave não roce a sua cauda nesta, alem
disso deve ser possível proceder à sua troca
sempre que necessário.
O sucesso na época
de criação começa a ser construído
com as instalações é portanto altamente
conveniente que o futuro criador visite tantos aviários
quantos possíveis para tirar ideias, e tente conversar
com os criadores sobre que alterações fariam
se pudessem.
Construídas
as instalações está na altura de comprar
as aves, aqui a regra é sempre a mesma, só comprar
crias do ano ou jovens com 2 anos, adultos só em
ultimo caso e só se merecer mesmo a pena, e só e é mesmo
só se estiverem anilhados (claro que se comprarem
directamente ao criador e por qualquer motivo ele não
tiver anilhado as crias é uma excepção),
nunca comprar adultos em loja e mesmo em criadores só se
houver uma boa razão para a venda.
A melhor altura
para se proceder as novas aquisições é em
Setembro, as aves novas já fizeram a muda e não
está nem, muito calor nem muito frio, as novas aquisições
devem ser sempre isoladas fisicamente do restante do plantel
e serem tratados separadamente para evitar contaminações
cruzadas.
Os Ringnecks
tem um dimorfismo sexual que consiste no anel à volta
do pescoço que o macho adulto exibe, este anel consiste
em duas partes, na parte inferior é preto na parte
superior é rosa e preto, a cabeça do macho é também
mais azulada (depende da subespécie) O dimorfismo
só é visível a partir da segunda ou
da terceira muda, no entanto se arrancarmos algumas penas
na zona do colar a uma ave jovem que já tenha feito
a 1ª muda, as penas que nascem podem vir já com
a cor definitiva, permitindo conhecer o sexo. Existem mutações
como o albino e o malhado recessivo em que o dimorfismo
sexual está ausente, nestes casos teremos que nos
guiar pelo comportamento.
Em termos comportamentais, os machos jovens começam a exibir o comportamento
típico da corte após o seu primeiro ano de vida, assim eles “empinam-se” e
dilatam/contraem as pupilas, tentam também alimentar os companheiros
de gaiola. No entanto para se ter a certeza a 100% é preciso esperar
pelo aparecimento do colar ou fazer uma sexagem por endoscopia ou analise do
DNA.
O meu sistema
de alimentação é extremamente simples,
a base é uma boa mistura de sementes com pouco girassol,
de dois em dois dias maças, a agua é mudada
todos os dias, e tem sempre à disposição
casca de ostra e grit, ao aproximar-se a época de
reprodução é fornecida uma boa papa
seca que é humedecida na hora de dar com agua, a
frequência do fornecimento da papa vai aumentado
e ao chegar a época de reprodução é mudada
diariamente e a fruta também passa a ser dada diariamente.
A alimentação é mantida
neste esquema até à muda, após esta
estar concluída é removida a papa, e passam
outra vez a comer só sementes secas e fruta dia
sim, dia não.
Como as aves
são mantidas em bando até aos fins de Novembro, é necessário
para alem das gaiolas de criação, um viveiro
comunitário, que deve ser o maior possível,
especialmente na altura e na largura de modo a permitir
a colocação do maior nº de poleiros
possíveis e reduzir assim a agressividade, como
os Ringnecks são aves belicosas, 6 é o nº mínimo
de aves adultas para serem colocados em bando o que impede
que foquem a atenção num único individuo,
se forem crias podem ser colocados menos, por norma eu
vou colocando as crias no viveiro e só depois destas
terem sido todas colocadas é que coloco todos os
casais adultos ao mesmo tempo.
Quando chega
o fim de Novembro separo os casais, espero por norma até ter
um fim-de-semana que passe em casa e faço a separação
logo no sábado de manha, isto permite-me ter o fim-de-semana
inteiro para observar se à algum problema com os
casais. Ao colocar os casais é necessário
ter em atenção alguns cuidados, se tiverem
outras espécies de psitacideos coloquem-nas intercaladamente
com os casais de Ringnecks, se tal não for possível,
tentem evitar que fiquem adjacentes dois casais novos,
uma vez que os elementos do casal não se conhecem,
podem dar preferência ao membro do casal da gaiola
ao lado, se por qualquer razão tiverem que ser colocados
dois casais novos lado a lado ponham um casal e passado
2-3 semanas coloquem o outro, assim o 1º casal já tem
uma relação estabelecida quando os seu vizinhos
forem colocados.
No final de
Dezembro começo a preparar os ninhos, lavo-os com
uma solução diluída de hipoclorito
de sódio, após estarem secos, ponho no fundo
uma camada de casca de pinheiro com pedaços bem
grandes (do género que se vende para jardins), e
coloco os ninhos nas gaiolas de criação,
nos casais que vão servir de ama a colocação
dos ninhos é efectuada 1-2 semanas após os
restantes casais, procedendo assim garanto que os casais
reprodutores irão começar a postura primeiro
que as amas.
Assim que o
ninho é colocado a dieta é mudada, e para
alem da mistura de sementes, a papa é dada fresca
todos os dias, e é dada uma maça dia sim,
dia não.
As fêmeas geralmente começam a entrar no ninho no inicio de Fevereiro,
e começam a reduzir a casca de pinheiro a fragmentos, nesta fase o macho
faz constantemente a corte à fêmea que é normalmente prolongada
e destina-se a reduzir os riscos de agressão da fêmea ao macho,
quando a fêmea começa a postura é fundamental que tenha
disponível uma fonte de cálcio e no caso de não ter acesso à luz
solar tem que ter um suplemento rico em vitamina D3.
Quando a fêmea
começa o choco eu habituo-a a inspecções
periódicas, abrindo todos os dias a caixa para ver
como ela está, se ela não sair de cima dos
ovos não faz mal, o importante nesta fase é garantir
que a fêmea está bem e que está a chocar.
È nesta fase que tem que ser verificados os ovos dos vários casais
para ver quais contem embriões em desenvolvimento, isto deve ser feito
de uma só vez, de preferência na 2º semana de choco.
Quando sabemos ao certo quantos ovos viáveis temos, podemos planificar
a sua distribuição pelos casais, no caso de termos casais de
amas começamos por eles, retirando os seus ovos e substituindo-os por
4-5 ovos dos outros casais tendo o cuidado de identificar os ovos com canetas
de acetato, deste modo sabemos a que casais pertencem os ovos, as crias à nascença
podem ser identificadas de igual modo de maneira a não haver confusões
até ser possível anilha-las, nos restantes casais acertamos os
ninhos de modo a termos 4-5 ovos viáveis, isto vai permitir (em principio)
libertar alguns casais, como é natural devemos tentar libertar os casais
que nos interessam mais.
Ao serem retirados
os ovos a tendência natural da fêmea é repetir
a postura permitindo assim duplicar o número de
crias que podemos tirar dos casais principais numa época.
Em relação aos outros casais (excluindo as amas) podemos fazer
ainda outra coisa para aumentar o rendimento, ás 3 semanas podemos tirar
as crias, nesta fase eles já se aguentam com um menor nº de refeições,
e já não precisam de temperaturas tão altas, tendo o equipamento
básico (Maternidade, seringas, recipientes para as crias, etc..) podemos
com um mínimo de trabalho criar estas crias permitindo que os pais façam
nove postura.
Sempre que
forem retirados ovos ou crias a um casal eu deixo a fêmea
voltar a entrar no ninho para ela poder verificar que já não
tem a ninhada, após algum tempo se ela não
sair do ninho eu tiro-a e procedo à limpeza do mesmo,
colocando nova camada de casca de pinheiro, mas não
coloco o ninho de imediato, deixo passar 2-3 dias para
garantir que a fêmea já não está choca,
de um modo geral a fêmea começa pouco depois
a demonstrar interesse pelo ninho e recomeça o ciclo.
Os casais com
crias são acompanhados quase diariamente para garantir
que tudo vai bem, e as crias são anilhadas aos 8-10
dias, se o ninho se mantiver seco eu não limpo o
ninho enquanto as crias não saírem do mesmo,
após a saída das crias o ninho é substituído
por outro o que pode ajudar algumas fêmeas a fazerem
nova postura, isto tem lógica porque em estado selvagem
não à reutilização do ninho
devido ao risco de parasitas externos, caso não
seja possível substituir o ninho, procedo a uma
limpeza geral e volto a coloca-lo com nova camada de material.
As crias ficam
ao cuidado dos pais até eu observa-las a comerem
por si mesmas, sendo então separadas para o voador
em conjunto com outras crias, nunca ponham crias recentemente
separadas dos pais juntamente com adultos ou crias mais
velhas, usem sempre uma gaiola intermédia onde colocam
apenas crias de um mesmo grupo etário até as
mesmas estarem capazes de se defender no viveiro.
Eventualmente
podem haver situações em que por qualquer
motivo tenhamos que deixar as crias ao cuidado de só um
dos progenitores, nesse caso temos que ter em atenção
o seguinte, a fêmea dá comida e calor ás
crias nas primeiras semanas, se ela não estiver
presente o macho alimentará as crias mas não
vai aquece-las é portanto vital que a fêmea
esteja presente nas primeiras semanas, se ela morrer, fugir,
não alimentar ou agredir as crias estas terão
que ser transferidas, no entanto podemos deixar as crias
só com o macho após estas estarem emplumadas
já que nesta fase o macho sozinho é perfeitamente
capaz de tratar delas, o inverso também é verdade
se a fêmea é indispensável nas primeiras
semanas o macho é o depois das crias saírem
do ninho, já aconteceu que após o macho ter
morrido logo no inicio da incubação uma fêmea
ter levado a incubação até ao fim
e tratado das crias até elas saírem do ninho,
mas depois destas saírem do ninho recusou-se a alimenta-las,
por isso na fase final do ciclo é mais necessário
o macho do que a fêmea.
Seguindo o
método anteriormente descrito podemos geralmente
duplicar e em alguns casos até triplicar o numero
de crias por casal, mas é fundamental para o sucesso
que o criador conheça as suas fêmeas e aquilo
que pode esperar delas, algumas fêmeas não
farão 2º postura, mesmo que se lhes tire os
ovos, e neste caso não vale a pena tentar dar-lhes
a volta, outras por outro lado farão dois ciclos
reprodutivos completos todos os anos, portanto também
não é produtivo remover-lhe os ovos.
No meu caso,
a 1ª época de criação, era sempre
destinada a avaliar a fêmea e a permitir que ela
ganhasse experiência, nunca lhes tirava os ovos,
e só lhes tirava as crias se visse que elas não
lhes davam de comer, conforme a fêmea se portasse
fazia os meus planos para as épocas de criação
seguintes.
À dois
anos vi-me forçado a desfazer-me dos meus casais
de Ringnecks, e com muita pena minha vendi os casais reprodutores,
mas conservei os casais de amas, e isto porque é relativamente
fácil arranjar aves com dois anos de quase todas
as cores que queiramos, mas casais de amas de absoluta
confiança não são assim tão
fáceis de encontrar, e como o período reprodutivo
dos Ringnecks é superior a 20 anos se mais tarde
quiser recomeçar já tenho os casais de amas.
Mutações
Actualmente
o Ringneck apresenta varias mutações primárias
que podem ser combinadas num sem número de combinações
Ino: Mutação recessiva ligada ao sexo, existe um ino não
ligado ao sexo mas é muito raro, na linha verde são conhecidos
como lutinos na linha azul como albinos, caracteriza-se por não apresentar
melaninas nas penas e pele, os olhos são vermelhos.
Canela: Mutação recessiva ligada ao sexo, as eumelaninas não
se formam completamente e em vez de apresentarem a cor preta ficam castanhas.
Pálido: É uma alelo do ino, codominante em relação
a este, mas recessivo em relação ao alelo normal, anteriormente
era conhecido como lacewing, mas o termo lacewing deve ser usado apenas para
a combinação canela ino.
Azul: Mutação recessiva que dá origem a uma ave sem pigmentos
amarelos.
Turqueza: Alelo do ino, apresentam uma distribuição não
uniforme dos pigmentos amarelos e os machos tem um colar de um rosa esbatido.
Cinzento: Mutação dominante em que a camada reflectora de azul
desapareceu, na linha verde são chamados de verdes cinzentos.
Factor de escurecimento: Este factor é codominante, com o heterozigotico à ser
chamado de verde-escuro e o homozigotico de oliva, o homozigotico na linha
azul fica muito parecido com o cinzento. Esta mutação causa uma
diminuição de uma estrutura na pena que recobre as melaninas
tornando-as mais visíveis.
Violeta: Este
factor é codominante, a ave apresenta um tom violeta
na linha azul, na linha verde apresenta um tom verde-escuro
com reflexos violeta, neste caso a camada reflectora de
azul sofre uma modificação e passa a reflectir
noutro comprimento de onda.
Diluído dominante: Antigamente chamado de fallow dominante, é uma
mutação dominante em que a ave deposita menos melaninas nas penas.
Fallow: Existem vários tipos de falow nos ringnecks, todas são
recessivas, com olhos vermelhos e pele clara a mutação Butercup
(Cabeça amarela) é na realidade um fallow.
Cabeça Amarela Cauda Amarela: Esta mutação causa uma diminuição
de pigmentos na cabeça e na cauda do macho e na cauda da fêmea.