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Princípio de Selecção e Melhoramento Genético

Fonte: Ricardo Pereira - 2001

Para qualquer criador a melhoria da qualidade das suas aves deverá ser uma necessidade constante. Se, em parte, isso se consegue pela melhoria e atenção dada a aspectos, como o alojamento e alimentação, correctos das nossas aves, grande parte deve-se a uma selecção dos melhores indivíduos para a reprodução garantindo com o tempo a melhoria do nível genético médio do seu efectivo. Desde há séculos que o homem vem seleccionando diversas espécies, por vezes com um grande conhecimento e apoio na ciência, noutros baseado na sua experiência e observação. É este o caso da avicultura, pelo menos no campo da ornitofilia. Não poucas vezes encontramos em exposições de aves uma grande desigualdade no nível de qualidade dos exemplares expostos.

Na grande maioria dos casos, não se deve este facto a menor ou maior pericia de uns e outros criadores, nem talvez a uma menor qualidade das aves em si, mas a algumas falhas a nivel de selecção que podem, em poucas gerações, fazer baixar o nível do efectivo. Isso não é de louvar nem defender, nem tão pouco beneficia a avicultura nacional. É o velho perigo das médias quando aplicadas a extremos muito afastados. Temos antes de tudo o resto de perceber uma coisa, a selecção leva tempo, gerações, anos, décadas, até se notarem os seus verdadeiros efeitos no nível das nossas aves. Isso é um grande problema para o amador menos atento, que quase sempre não nota os verdadeiros avanços que produz com as suas aves e deixa-os perder, não os reproduzindo em gerações futuras. E se alguém uma vez disse que "uma mutação nova não tem de ser vistosa, mas sim notada", o facto é que a selecção em si não pode ser encarada como as mutações, a selecção ocorre por e nas mutações!!

A selecção, como meio de melhoramento, tem em vista a reprodução das aves que apresentam algum factor de interesse mais desenvolvido que outras, que as torna melhores nalguns pontos. Torna-se necessário distinguir os efeitos causados num indivíduo devido à sua base genética e ao ambiente. São distintos e é assim que os devemos encarar e trabalhar. As condições ambientais são facilmente alteráveis e corrigidas e devem, sempre, permitir (ou tentar) que as aves exprimam todo o seu potencial genético. Como princípios básicos para a evolução da qualidade das aves devemos considerar:

- conhecimento e aproximação das aves ao "standard";

- melhoria das condições ambientais;

- Estabelecimento de linhas estáveis de reprodutores de bom valor genético;

- Conhecimentos básicos de genética das aves com que trabalhamos;

- Noção dos pontos a melhorar no efectivo.

Dito isto resta adiantar uma única coisa. A ornitofilia basea-se não só na amizades que se fazem, mas também na competição saudável (porque também há a outra…) que se cria ao expôr as aves. É nas exposições que se mostra o trabalho de uma época e se compara esse trabalho com o de outros criadores e amigos. De nada serve escrever e ler sobre genética, reprodução e tudo mais para depois deixarmos as nossas aves em casa enquanto nas exposições dizemos ter melhor, mas que ficou em casa… È sobre a qualidade genética das aves que nos devemos debruçar. Mas porquê, afinal, todo este empenho na selecção? O princípio é simples e todos o conhecem decerto, escolhem-se as melhores aves para que as crias sejam melhores. O problema reside em saber o que é "melhor", como é que definimos uma ave como "melhor"? Isso implica muita coisa pois podemos seleccionar em tamanho, cor, marcações, postura, tipo, etc… No fundo cada factor pode ser seleccionado por si só separadamente, mas as aves demonstram todos eles. Infelimente que quando seleccionamos num sentido os outros tendem a piorar. O importante é seleccionar de um modo equilibrado e racional, não procurar milagres com aves muito boas que se compram e depois se desperdiçam em efectivos medianos. Voltemos pois um pouco atrás para que não se perca o correcto raciocinio.

Poucos são aqueles que começam nesta actvidade com aves de grande qualidade. A maioria começará com aves encontradas nas lojas, com poucos ou nenhuns fundamentos da sua genética e só mais tarde ganhará o verdadeiro interesse de melhorar as suas aves. Todos os seres exibem, naturalmente, uma diversidade genética própria, ela é, aliás, a base da evolução natural. Essas diferenças também surgem em cativeiro. Enquanto a natureza selecciona aqueles indivíduos mais aptos para sobreviverem e, depois, de reproduzirem, nós seleccionaremos os mais "aptos" na característica que pretendemos melhorar. Procuramos obter a ave mais bela, mais composta em termos de postura, enfim, satisfazer os requisitos que um juiz especializado avalia na ave. Não me vou referir às situações que por certo a grande maioria dos criadores encontrou de inicio ao trabalhar com aves desconhecidas e, muitas vezes, de menor qualidade. Vou saltar um pouco essa parte e começar duma altura mais avançada quando o iniciado terá já establecido um conjunto de alguns casais e se dedica agora a criá-los.

A primeira questão é qual o número de casais?

De um modo muito geral não podemos apontar regras neste sentido, para qualquer espécie, existem inúmeras mutações e combinações para se poder aconselhar um número. O que se deve fazer é começar por linhas simples ou mutações simples, designa-se isto por linha base. Uma linha é, por definição, um conjunto de indivíduos com características semelhantes que, reproduzidos entre sei, originam descendentes semelhantes a eles. Não se aproxima isto da definição de liha pura, pois essas exigem uma maior estabilidade e regularidade dos indivíduos produzidos. Devemos procurar nesta fase que as nossas aves reprodutoras produzam descendentes minimamente previsíveis. Casais que produzam resultados pouco estáveis não devem ser incluidos em linhas base. Em relação à quantidade o principal factor a evitar é a consanguinidade. 3 casais será o mínimo aceitável para formar uma linha inical, 5 o recomendável 8-10 o ideal.

A selecção apenas faz sentido quando nos referimos a linhas de aves, não a indivíduos singulares. O individuo é uma parte da linha e a sua qualidade a demonstração da qualidade da linha. Não é importante ter uma ave muito boa, produzida uma vez cujo nível depois não podemos manter. Por isto quando se adquirem aves novas para melhorar eles deverão ser sempre muito melhores, mesmo que isso custe dinheiro. Uma boa ave não faz milagres. Desiludam-se os que acreditam que comprando as melhores aves de uma época e cruzando-as entre si ou com as suas melhoram muito o seu nível. Talzez numa primeira geração, mas dificilmente isso perdurará em gerações futuras simplesmente porque as bases genéticas são demasiado distintas. Passado algum tempo começa a haver de novo demasiada irregularidade nos denscendentes dessas aves. Deve-se manter uma linha base sólida, estável, sobre a qual se melhoram as outras aves. As alterações e melhorias de uma linha medem-se em grande parte, pela estabilidade dos resultados obtidos, pela manutenção de um nível de qualidade acima da média dos progenitores. É regra básica da selecção que apenas se deve reproduzir como superior o que realmente for superior ao nivel médio da ascendência, ou seja, só nos interessam aves que sejam melhores que os pais. Tudo o resto será pouco provável que traga melhorias.

As aves compradas para melhorar o efectivo devem SEMPRE ser usadas em aves novas (embora com certeza da sua fertilidade) porque essas crias deverão ser no mínimo tão boas como os seus progenitores. As melhores aves nem sempre devem ser acasaladas às melhores, isto provocaria uma diferença entre os resultados de alguns casais que não poderíamos compensar no futuro. Um bom acasalamento deve garantir que as qualidades de ambas as aves se complementa nas crias. Em suma, só seleccionando racionalmente as melhores aves podemos melhorar o nosso efectivo. É essencial que se participe em exposições onde vamos medir essa melhoria, que se trabalhe no sentido de obter resultados estáveis e fiáveis não casuais e, acima de tudo, que se perceba a importância de criar e manter linhas, evitando renovações maciças do efectivo entre épocas e se ganhe confiança nas qualidades das nossas aves. Ao manter e substituir reprodutores deve-se manter sempre que isso interesse à selecção descendentes destes para garantir a continuidade de uma base genética estável e familiar às outras aves.

Os registos produtivos são de extremo valor para se melhorarem os resultados. Sem registos correctos de descendência não podemos controlar o nosso efectivo por muito tempo. Só mantendo estas condições podemos melhorar as aves, a sua qualidade e a nossa competitividade e valor como criadores.


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