Outro deslize
relativamente comum é freqüente na televisão.
Programas como MUNDO ANIMAL, por exemplo, extremamente
meritórios por seu excelente conteúdo,
deveriam contar com rigorosa assessoria científica
quando de sua versão para o Português, evitando
que aves como garças, tucanos, araras e outras
continuem sendo denominadas pássaros, o que constitui
erro palmar. Também as publicação
dedicadas a Ornitofilia, Ornitologia Amadora e assuntos
correlatos estampam com assiduidade títulos do
tipo "PERIQUITOS ONDULADOS, PÁSSAROS MARAVILHOSOS", "AGAPORNIS,
PÁSSAROS DO AMOR" etc. Ora, que o leigo cometa
tais equívocos é compreensível e
até perdoável, mas, deve confessá-lo,
quem tem algumas noções de Ornitologia
não os engole sem veementes protestos!
Rodolpho
von Ihering, um dos maiores naturalistas deste País,
já frisava em sua obra magna, o DICIONÁRIO
DOS ANIMAIS DO BRASIL: "Pouca gente costuma fazer
distinção com valor classificativo, no
emprego dos vocábulos ave e pássaro, peculiares à nossa
língua e à espanhola. O francês emprega
indiferentemente oiseau, tanto ao designar o avestruz
como o pardal e da mesma forma Vogel em alemão
e bird em inglês aplicam-se a qualquer vertebrado
plumado. Mas ninguém, falando corretamente nossa
língua, dirá que a ema, o gavião
e o papagaio sejam pássaros". O mestre até exemplifica: "Termos
ouvido definir que pássaros são as aves
pequenas. Estará certa? O bem-te-vi é um
pássaro, mas a rolinha, muito menor, pode ser
designada assim? Certamente que não, pois a rola é uma
pomba e os representante desta ordem não são
pássaros, porém aves, como as galinhas".
Depreende-se,
portanto, a existência de valor classificativo
para a palavra pássaro. Todos os vertebrados providos
de penas são aves, inclusive os pássaros.
Estes, porém, pertencem a um grupo zoológico
bem caracterizado, constituindo a ordem Passeriformes.
E a ela não se filiam tuins, andorinhões
e nem mesmo os beija- flores, apesar de suas reduzidas
dimensões. Daí se deduz que, se quisermos
empregar com exatidão os vocábulos ave
e pássaro, a noção de tamanho deve
ser completamente abandonada, levando-se em conta apenas
o critério de classificação. Pássaros,
só os Passeriformes, que têm bico desprovido
de membrana na base, tarsos isentos de penas, pés
com três dedos dirigidos para a frente e um para
trás e unha do dedo posterior mais forte que a
dos anteriores, dos quais os dois interiores são
ligados entre si na base.
Já que,
para o leigo, isso não quer dizer muito, embora
elimine uma série de espécies (todas as
que têm dois dedos dirigidos para a frente e dois
para trás, por exemplo, incluindo-se aí os
menores pica-pauzinhos), a única maneira prática
de esclarecê-lo é relacionando todas as
famílias de Passeriformes que ocorrem no Brasil:
Dendrocolaptídeos
(arapaçus e subideiras).
Furnariídeos (joões-de-barro, bentererês, trapadores etc).
Formicariídeos (chocas, tovacas, papa-formigas etc).
Rinocriptídeos (macuquinhos, tapaculo-preto etc).
Cotingídeos (arapongas, anambés, pavó, crejoá,
corocochó etc.)
Piprídeos (tangarás, fruchus, rendeira, flautim etc).
Tiranídeos (bentevis, suiriris, sebinhos, tesouras, viuvinha etc).
Oxiruncídeos (bico-agudo).
Hirundinídeos (andorinhas).
Corvídeos (gralhas).
Trogloditídeos (corruíras, garrinchas etc).
Mimídeos (arrebita-rabo, sabiá-da-praia, japacanim).
Turdídeos (sabiás)
Sulviídeos (balança-rabos, chiritos, bico-comprido).
Motacilídeos (caminheiros).
Vireonídeos (pitiguari, juruviaras, verdinho-coroado).
Icterídeos (chupim, pássaro-preto, graúnas, japus, corrupião
etc).
Parulídeos (pula-pulas, pia-cobra, mariquitas).
Cerebídeos (saís, cambacicas etc).
Tersinídeos (saí andorinha).
Traupídeos (sanhaços, saíras, gaturamos, tiês, pipiras
etc).
Fringilídeos (azulão, curió, bicudo, canário-da-terra,
cardeal, patativa, caboclinho, papa-capins, tico-ticos, trinca-ferro, tiziu
etc).
Ploceídeos (pardal).
Estrildídeos (bico-de-lacre).
Como se vê, a quantidade não é pequena. Das cerca de 1.590
espécies de aves presentes no Pais (segundo o prof. Helmut Sick), quase
900 são pássaros. É importante atentar para os casos de
evolução convergente, não confundindo com pica-paus os
arapaçus (Dendrocolaptídeos), que se comportam como aqueles (Picídeos,
da ordem Piciformes) mas possuem três dedos dirigidos para a frente e
um para trás. O mesmo se diga de andorinhas (Hirundinídeos) e
andorinhões. Estes, da família Apodídeos, não são
pássaros, pertencendo à mesma ordem dos beija-flores (Apodiformes).
Também os tuins, periquitos e similares nada têm a ver com pássaros,
por menores que sejam (integram a família Psitacídeos e ordem
Psitaciformes). Analisando-se com atenção as famílias
que compõem a ordem Passeriformes no Brasil e seus respectivos exemplos
não há como errar, evitando-se o emprego incorreto de uma palavra
que, em nossa língua, tem valor classificativo. Portanto, todos os pássaros
são aves, mas nem todas aves são pássaros!