Daí,
agora, a criação de canários da terra
pode entrar para o primeiro time das criações
em ambiente doméstico. É onde entra a nova
diretriz e direcionamento dos criadores.
Os canários sempre foram uma paixão. De menino me fascinei. Garoto
ainda, mais ou menos 8 anos, vi passar pela estrada que dava acesso a fazenda
onde morava, uma pessoa, montado numa bicicleta. Levava na mão um Bate
(gaiola própria para caçadas, normalmente feita de varas de uvá,
leves, com dois alçapões laterais (os bates) acionados por varetas
da copa de guarda chuvas). Dentro do bate, um canário pardo, estalando
direto.
Acompanhei a caçada. O canto de desafio, o confronto, o enfrentamento
do pardo ao amarelo dono do ponto, os primeiros pegas uma briga ferrenha, e quando
o bate se fechou aprisionando o amarelo, o Canário Pardo, partiu para
cima dele, fazendo voar penas. Eu fiquei extasiado. Como que hipnotizado por
aquele Pardo.
Aquela cena e aquelas imagens me enfeitiçaram. Me apaixonei. Tal qual
o menino que ao sair do circo decide ser domador de feras ou trapezista, decidi:
Vou ser caçador de canários.
Evidentemente que essa não foi minha profissão, mas nunca me afastei
dos canários. O Bate, guardo até hoje. Sem uso a mais de 20 anos,
guardo-o com carinho para confirmação de minha fé e admiração
pelos canários, tal qual o cristão que se benze ao passar à porta
da igreja.
Nos primeiros torneios com a participação dos canários da
terra, 90% dos pássaros participavam na categoria fibra e também
esse era o mesmo percentual de canários de origem do mato. As condições
do torneio de fibra são severas e rigorosas para os pássaros, somente
os muito bons se destacam e são classificados. Daí a busca desenfreada
pelos pássaros de origem silvestre, baratos de aquisição
e vindos de um poderoso arsenal genético onde muitos se revelavam e uma
boa parte não fazia feio.
Esse foi talvez, o grande vilão da criação doméstica
: Os Torneios e a sua seleção imediata. A pronta aferição.
Os pássaros que não demonstravam aptidão para a Roda, que
não tinham fibra suficiente para as disputas, sem seqüência
de canto e principalmente os corridos eram simplesmente destinados aos viveiros,
para onde também iam as fêmeas. Resultado: procriavam. Esses filhotes,
assim como seus pais, eram inferiores; solidificou-se a opinião: Canário
Criado não presta.
E quem foram os culpados para que esse conceito se solidifica-se: Nós
mesmos, criadores de canários. Todos temos uma parcela de culpa.
Estão sendo precisos outros 20 anos para mudar esse conceito. Esses 20
anos já se passaram. Acabaram-se os canários do mato. A caça
e apreensão é, hoje, uma atividade ilegal. A grande maioria dos
canaristas, quer por entender que o volume de pássaros em cativeiro já é o
bastante ou por temor aos rigores da lei, não caça e nem compra
pássaros de origem desconhecida, pois se outro motivo não tivesse
existe sempre a possibilidade de uma incerta do Ibama ou Polícia Florestal.
Assim, estamos assistindo a participação dos últimos de
origem desconhecida nos torneios. É justamente aí que entram os
novos conceitos, diretrizes e direcionamentos do plantel.
Até poucos anos atrás (anos 70), a os princípios de genética
estavam restritos aos meios científicos e acadêmicos. Nós,
que não fazíamos parte desse círculo, só começamos
a tomar conhecimento dos estudos de genética, da transmissão e
seleção de caracteres hereditários, dos atavismos, quando
começaram a ser divulgados os trabalhos com bovinos e com as galinhas
poedeiras e os frangos de abate.
Muita gente pensou e infelizmente ainda acredita, que todos esses estudos de
seleção genética e transmissão de genes, ainda só valem
para vacas e galinhas de granja e não para nossos pássaros.
Uma vez admitida a existência de um mecanismo hereditário capaz
de transmitir informações através de sucessivas gerações,
os criadores de curiós e bicudos, saíram na frente. Rapidamente
entenderam que os famosos padreadores greguinhos, mantidos escondidos dos olhos
dos visitantes nos fundos das casas, em nada melhoravam ou sequer mantinham as
qualidades do plantel, foram descartados. Sistematicamente foram colocando na
reprodução os melhores pássaros, os campeões dos
torneios. É inegável a quantidade de bicudos e curiós repetidores,
de bom canto, etc. que se produz hoje em dia.
No geral, os canaristas, ainda acreditavam que tinham e teriam para sempre acesso àquele
imenso e poderoso banco genético, dos canários criados livremente,
lapidados pela natureza ao longo dos anos, onde só os bons se destacavam.
Demorou, mas caímos na realidade.
Um dos elementos responsáveis por essa produção em série
de refugos, foram, por mais incrível que possa parecer, os Canários
de fibra. Isso porque, logo se descobriu como verdade e tornou-se conduta de
todos os canaristas que, Canário de fibra não pode ser enfemeado
. Por isso as fêmeas eram colocadas distantes, nos viveiros (e durante
muitos anos só se utilizava viveiros) para onde iam também os corridos
e tesos. Daí o resultado.
Hoje, o nosso canário é fruto da criação doméstica.
A noção de evolução aparece de forma acentuada na
criação sob intervenção do homem.
Os pássaros criados em cativeiro reagem, mediante ajuste biológico,
para manter as condições fisiológicas ótimas que
seu código genético lhes confere. (Biologia Evolutiva em Ornitologia
Desportiva. Alfonso Babra. Revista Pájaros, 2000)
Surgem os primeiros campeões, nascidos em ambiente doméstico. Separam-se
as linhagens e tal qual é costume proceder com outros pássaros,
os canários passam a ser selecionados para diversos fins e qualidades
distintas ou somadas: Canto, Fibra, Valentia, Freqüência de canto,
Qualidade do canto, Voz, Postura, Disposição e Repetição,
indistinção de poleiros (cantar em todos os poleiros da gaiola
e não só no dorminhoco ou no fundo da gaiola), Plumagem (mutações),
Extensão do canto, e uma classificação minha: Show . Isto é,
um Canário que reúne diversas das qualidades acima sem ser um canário
de torneio. É um canário de passeio e exibições :
Show.
Mas se estamos selecionando os canários, devemos, inicialmente formar
os canaristas e difundir os conceitos. Passaremos pelas mesmas dificuldades dos
criadores de bicudos e curiós (novamente os coloco como referências)
pois sabiamente, difundiram os cantos tidos como padrões e principalmente
treinaram e qualificaram os julgadores, tentando estabelecer os mesmos critérios
de julgamento e pontuação.
Nós os canaristas ainda estamos muito arraigados a antigos e descabidos
conceitos. Tal qual a excelência do cavalo de boca torta, tido como muito
bom, por muito tempo, fazendeiros selecionaram cavalos que tivessem a boca torta,
esqueceram ou não acreditaram que aquilo era uma Característica
e não Qualidade, daquele animal; daí....
Os nossos campeões, não tem a boca torta, no nosso caso, Bico,
mas ainda assim multiplicam-se as teorias :
* Canário
para ser bom, deve virar amarelo solto;
* A Fêmea solta, trata do filhote diferente, daí sai
mais valente;
* Todo canário criado solto, dá valente;
* Canário criado na gaiola não tem valentia;
* Canário solto tem pé preto e canário de pé preto
não nega;
E por aí vai;
tem inúmeros outras; todas pretensos ditados feitos
por comerciantes de canários para apregoar as qualidades
do que deseja vender a um incauto. Nada disso tem fundamento
e nem resiste a mais superficial análise. Infelizmente,
aprendemos isso da pior maneira : Já fomos o incauto.
Seja qual for o objetivo da criação, um pensamento deve estar
sempre presente: só bons, produzem bons . Aquela velha história:
Ah, o pai desse canário não era de nada e só produziu
coisa boa, não serve como regra de criação; isso é Atavismo
e esse não é o melhor caminho para a seleção de
reprodutores. O tempo de aferição é longo e o preço
a pagar, em caso de erro de julgamento ou avaliação, muito caro.
Pensar que Aquele que não era de nada, talvez não tenha tido
um bom manejo, etc... é desculpa para a falta de conhecimento do criador.
Simplesmente reproduzir espécimes, por reproduzir, embora muitas vezes
complicado pela falta de conhecimento não é o mais difícil;
difícil é reproduzir espécimes, com objetivos definidos,
visando fixação de caracteres e soma de qualidades, isso é CRIAR. É uma
ARTE. MANEJO é outra coisa, OUTRA ARTE.
O bom criador (das espécies que sabidamente procriam em ambiente doméstico)
será aquele que for capaz de efetuar os cruzamentos aproveitando as
qualidades de cada um dos pares e produzir indivíduos que externem Espontaneamente
a soma das qualidades herdadas.
Se tiver um bom manejo, propiciando condições de externar as
qualidades que possui, formaremos um grande pássaro. Até mesmo
um Campeão. Esses, já nascem em nossas gaiolas com maior freqüência
do que imaginamos; reconhecer esse Campeão é a grande qualidade
do criador, quantos de nós será capaz ???? Isso é outra
história.
Quanto ao menino que queria ser Caçador de Canários, cinqüenta
anos depois, ainda revejo, com meus olhos fechados, muitas noites ao adormecer,
o mesmo filme encantador do Canário Pardo, passar numa telinha mental
projetada por meu cérebro. Durmo feliz.