Diferentemente
do que ocorria na natureza, onde um periquito mutante era
fadado à morte, no cativeiro esses exemplares eram
super protegidos e valorizados, justamente pelo aspecto
visual diferenciado.
Isso permitiu a identificação e a fixação de várias
mutações, que abrangiam diferenciações de cor e
desenho de asa, no decorrer desses mais de 150 anos.
Da mesma forma que as variações de cores iam sendo consolidadas
através de acasalamentos pré-determinados, simultaneamente uma
seleção da forma do periquito também ia sendo feita, tentando-se
aprimorar características como tamanho, postura e estrutura das penas.
Esse processo de seleção, após décadas de desenvolvimento,
fez com que o atual periquito australiano criado em cativeiro, mais precisamente
o Periquito de Exposição tenha se transformado num pássaro
muito diferente do exemplar selvagem, inclusive no que diz respeito à estrutura óssea.
Os atuais
exemplares têm um tamanho até 30% maior do
que os exemplares selvagens e também uma quantidade,
comprimento e textura de penas muito mais desenvolvida.
Quesitos estéticos também foram atribuídos à esses
pássaros como proporção de medidas entre comprimento total,
largura de ombros e forma da cabeça.
No entanto, a grande questão nesse processo todo girou em torno de como
se aprimorar efetivamente a forma do periquito. Com relação à genética
que determinava as cores e desenhos de asas tudo ficou bem definido, posto
que os genes responsáveis por tais mudanças foram identificados
e descritos quanto ao seu comportamento hereditário.
E os genes que determinam a forma do periquito? Quais são eles? Como
eles se comportam quanto à hereditariedade? Existe uma relação
de dominância e recessividade entre características diferentes
de um mesmo item, como tamanho de cabeça, por exemplo?
Todas essas questões são ainda uma incógnita e é justamente
aí que entra o trabalho do criador.
Na realidade o que se sabe é que essas características são
determinadas não pela ação de um único gene, mas
pela associação de vários genes. Como essas recombinações
gênicas não são de conhecimento da ciência, cabe
ao criador identificá-las e perpetuá-las nos seus exemplares.
Como fazer isso?
De nenhuma outra forma se não tentativa e erro.
Trazendo tudo isso para a vida prática, o desenvolvimento de um “tipo” ideal
de periquito é como um grande quebra-cabeça, aonde você tenta
somar as “peças” de modo a que formem o desenho desejado.
No caso do periquito de exposição esse “desenho desejado” é representado
por um pássaro que tenha as seguintes características:
1) bom posicionamento de poleiro (que forme um ângulo “quase” que
reto em relação à uma linha horizontal imaginária,
com uma inclinação máxima de 30°).
2) boa largura de ombros (que faça, subindo a partir do poleiro e visto
de frente, um leve desenho em forma de “V”). A largura total dos
ombros ser equivalente à aproximadamente 2/3 do comprimento do corpo,
medidos “sem” contar a cauda.
3) boa largura facial (subindo a partir dos ombros até a carúncula
com uma angulação mínima de modo a NÃO deixar o
pescoço evidenciado).
4) boa proporção entre o tamanho da cabeça (medida do
topo até a parte mais baixa da gola) e o comprimento total do corpo
(no atual “modelo ideal” a medida da cabeça deve ser 1/3
do comprimento total do corpo).
5) penas sedosas e bem assentadas, sem contudo serem curtas.
6) cabeça com profundidade de nuca (distância atrás dos
olhos) e cujas penas cresçam, não só para cima, mas também
para os lados e até á um ângulo de 45° negativos, medidos
a partir de uma linha horizontal imaginária que passe sobre as narinas,
de modo a dar à penas da cabeça do periquito, quando olhada de
frente, o formato de um “leque” (direcionamento das penas da cabeça).
7) largura
entre a carúncula e as laterais da face onde começam
os desenhos ondulados. Essa característica é evidenciada
por uma faixa vertical larga sem melanina (amarela, nos
periquitos de fundo amarelo e branca, nos periquitos de
fundo branco) entre as narinas e as marcas onduladas das
laterais da face. O que proporciona essa característica é justamente
a direção em que as penas dessa região
nascem.
8) as pintas da gola devem ser bem arredondadas e eqüidistantes, e a máscara
bem profunda, com uma boa distância do bico.
Certamente agrupar todas essas características num mesmo exemplar não é tarefa
fácil !
Acredito que a melhor maneira de fixarmos as características físicas
dos periquitos é formando “famílias” (linhas de sangue)
que possuam as características desejadas.
Como já comentei anteriormente, as características de “forma” dos
periquitos são determinadas pela ação conjunta de vários
genes não identificados. Sendo assim, quando você seleciona visualmente
essas características nos seus exemplares, a melhor maneira de perpetuá-las é acasalando
os indivíduos aparentados e que possuam essas características
entre si, formando, após algumas gerações, o que chamamos
de “linha de sangue” ou “linhagem”.
Os exemplares oriundos de sucessivos acasalamentos aparentados (consangüinidade)
têm uma chance muito maior de passar as suas características físicas,
no que diz respeito à “forma”, para os seus descendentes,
isso porque, quando você acasalou, lá atrás, os pássaros
aparentados e que tinham o “tipo” desejado, entre si, você acabou
selecionando aqueles vários genes “desconhecidos” que, em
conjunto, produzem a forma desejada.
Para que se obtenham bons resultados nesse processo de seleção é importantíssimo
saber identificar quais são essas “características desejáveis” porque
esse processo pode também fixar “defeitos”, quando essa
triagem não é bem feita.
Daí a importância de participar de exposições, visitar
criadores mais experientes, e pesquisar sobre a constante evolução
do “padrão” do periquito de exposição, etc.
Sem sombra de dúvidas, ganha-se tempo quando se adquire um exemplar
que seja oriundo de uma linha de sangue trabalhada conscientemente por várias
gerações.
O caso é que a aquisição de novos exemplares envolve custos
que nem sempre são viáveis.
Porém, tenha a certeza que você pode desenvolver as suas próprias
linhas de sangue, e que esse trabalho vai ajudá-lo muito mesmo quando
você, posteriormente, adquirir novos exemplares para o seu plantel, pois
você já terá características sedimentadas nos seus
pássaros e que certamente se somarão à nova linha de sangue
adquirida.