Investigações da Embrapa Pantanal, indicam
que o mercúrio (Hg) empregado na extração
de ouro de aluvião nos garimpos de Poconé,
adjacentes ao Pantanal, desde o início dos anos
80, está elevando os teores desse metal nas cadeias
alimentares. Uma das dificuldades na procissão dessa
poluição é definir indicadores com
potencial de expressar a concentração de
Hg, sem grandes dificuldades de amostragem, boa reprodutibilidade
dos resultados analíticos e que permita o monitoramento.
As aves, pôr ocuparem nível trófico elevado, comparável
ao do homem, são muito usadas como uma boa e precoce indicação
do potencial de poluição passível de ser perigoso ao homem.
As espécies de aves aquáticas que se alimentam de peixes, como
estão presentes em todos os “habitats” de água doce
e pôr ocuparem diferentes nichos ecológicos, têm elevado potencial
de serem utilizadas como bons indicadores de contaminação ambiental
em cadeias alimentares aquáticas. Muitos estudos têm evidenciado
que as aves constituem-se em organismos muito sensíveis e vulneráveis às
contaminações ambientais pôr substâncias xenobióticas,
principalmente aquelas que se biomagnificam nas cadeias alimentares, como é o
caso do mercúrio.
A demonstração de que penas se constituem num bom indicador de
mercúrio no diagnóstico de poluição ambiental foi
aconteceu em 1966,na Suécia.
A Suécia foi pioneira no emprego de penas no diagnóstico de poluição
ambiental pôr mercúrio. Posteriormente foi verificado que 50% do
mercúrio acumulado no corpo de uma dada espécie de garça-branca,
tanto jovens quanto adultas, se encontrava nas penas. Foi também demonstrado
que o mercúrio depositado nas penas durante o processo de sua formação
não sofre alteração na sua concentração. Em
função disso, penas de aves que vivem em ambientes alagados no
Pantanal foram utilizadas na prospecção de Hg ambiental. A literatura
cita que penas de aves são vantajosas porque são facilmente conservadas
e o Hg acumulado pôr ocasião da sua formação, além
de refletir o nível de Hg na dieta, não sofre alterações
durante o armazenamento, permitindo o monitoramento ao longo do tempo. Para viabilizar
esse diagnóstico, desenvolvemos uma pesquisa para verificar se a espécie
de ave, o sexo e a época de captura são fatores que influenciam
a de concentração de Hg nas penas primárias nas condições
do Pantanal. O mercúrio total nas penas provenientes de 91 indivíduos
de 4 espécies de aves, sendo 18 biguás, 19 garças-brancas-grandes,
30 gaviões-caramujeiros e 24 carões foi analisado por espectrofotometria
de absorção atômica. Os resultados evidenciaram que as espécies
testadas apresentam mecanismos diferenciados de bioconcentração
de Hg nas penas primárias. A concentração média e
o desvio-padrão de Hg (mg.g.-1 – base úmida) nas penas das
aves avaliadas foram: biguá (1,99 ± 0,86), garça (1,93 ± 0,96),
gavião caramujeiro (1,29 ± 0,67) e carão (0,64 ± 0,39).
respectivamente. É interessante constatar que todas as médias estão
acima de 0,5 mg.g.-1 , que é o limite máximo.
Recomendado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados
Unidos (EPA) para proteger predadores na cadeia alimentar aquática. Essas
diferenças encontradas nos teores de Hg entre as espécies são
explicadas com base na dieta alimentar. O biguá e a garça se alimentam
principalmente de peixes, e o gavião-caramujeiro e o carão de moluscos.
Verificou-se também que o biguá apresentou o maior teor de Hg no
conteúdo estomacal. Além disso, essa maior habilidade do biguá,
em relação a garça, na concentração de Hg
nas penas primárias pode ser entendida pelas diferenças na estratégia
da captura de presas de hábitos alimentares tanto de fundo quanto da coluna
d’água. Essa maior habilidade do biguá de concentração
de Hg nas penas caracteriza a espécie como boa indicadora de contaminação
ambiental. Os dados também revelaram que a época de captura das
aves é fator relevante, indicando que o teor de Hg nas penas é influenciado
pelas variações sazonais. Esses resultados, além de indicarem
que as penas dos biguás podem ser utilizadas no diagnóstico de
contaminação ambiental, sugerem biomagnificação de
Hg no Pantanal, o que revela preocupações pelas restrições
que podem advir no aproveitamento sustentável dos recursos naturais do
Pantanal.